Como você resolveu ser guasqueira?
Bueno....
Essa é a pergunta que eu mais escutei nesses 10 anos de aprendizagem na arte da correaria.
Então é o que vou lhes contar a partir de agora
Um dia, nos idos anos de 2005, numa visita ao galpão de um amigo que criava e cuidava de cavalos crioulos, encontrei um moço trabalhando artesanalmente com couro.
Fiquei analisando o que ele estava fazendo durante alguns minutos.... Uma tira de couro de boi pendurada em um gancho, um artefato de madeira, uma faca e algumas ferramentas pontiagudas e com cabos arrendondados. Indaguei o que ele fazia e me disse que estava ponteando uma rédea...
Eu nunca tinha ouvido falar naquilo, mas me interessei pois já era artesã e tinha grande habilidade manual. Falou que nessa profissão ele era chamado de guasqueiro. O que é um guasqueiro? Guasqueiro se origina da palavra "guasca" que nada mais é que uma tira de couro que se usa para tirar tentos (tiras finas) e produzir aperos para encilhas e indumentária gaúcha.
Depois da explicação eu já estava entusiasmada e lhe pedi se era possível que ele me ensinasse esta técnica, o moço me olhou meio que de "revesgueio", fez uma boca meio torta, tipo de nojo, e me disse: "- Tchê, isso não é serviço pra mulher!!"
Me despedi, meio que me cuidando caso viesse outro pataço, e pensei com meus botões: "Este cuera não perde por esperar!! Vou aprender e vou ser melhor que ele!"
Fui camperear com os amigos gaúchos como eram feitos os arreios usados nos cavalos. Descobri uma denominação nova: cordas...
Das tantas voltas que a vida dá, conheci, enquanto fazia um trabalho na FAURGS, o Armando Mendicelli Neto, que em uma prosa rápida me contou que fazia "alguma coisita" em couro. Passaram-se 4 dias e o Armando vem falar comigo e trazia nas mãos um envelope pardo e logo me entregou. Abri e folheei como quem pega uma relíquia nas mãos, uma cópia do livro Mão Gaúcha. Ah... que maravilha aquilo, várias explicações inclusive de como estaquear um couro e preparar as loncas e afins, ferramentas e tudo que se pode imaginar... Lhe pedi para fazer uma cópia e ele saltou: "NÃO TU NÃO VAI FAZER CÓPIA".... Meu mundo caiu nessa hora, parecia uma flor sem água que murchou de vereda, mas para minha alegria ele vendo meu desespero me diz "CALMA GURIA, ESSA CÓPIA EU FIZ PRA TI!", não preciso dizer que a vontade foi de pular no pescoço dele e dar um abraço, era tudo o que eu precisava pra começar a aprender as técnicas. Não bastasse o livro, ainda me trouxe tentos prontos de cabrito para fazer as primeiras tranças e desde então é um grande amigo ao qual recorro sempre que preciso de uma informação ou uma ajuda em algo.
Já com a cópia do Mão Gaúcha nas mãos, conheci o Luciano Pacheco, laçador, alambrador e guasqueiro, conhecido em São Francisco de Paula por Fronteira. Esse me ensinou a botar a mão na massa, ou melhor, no couro. Passei uns dias no galpão da amiga Morgana Sanvido, que ficava na Várzea Grande, um pouco longe de onde eu morava e quem me levou até lá foi a amiga/irmã Alessandra Braga,e, lá, entre cuias de mates, lidas com cavalos, palanques sendo cravados, churrascos e longas prosas com o Fronteira aprendi a descarnar e estaquear um couro, a pelar a faca, a fazer e forrar um botão, a fazer algumas tranças, a fazer costuras invisíveis e etc...
E assim foi o início, como tudo na vida, feito de grandes desafios, obstáculos físicos, pois não é fácil estaquear um couro molhado que pesa uns 50kg, sozinha, nem tão pouco foi fácil mostrar para os homens que mulher pode sim, fazer qualquer coisa, não só as que homens fazem, mas sim qualquer coisa que nos propusermos a fazer.
Tive o prazer de conhecer pessoas incríveis que me ajudaram muito mesmo no começo, como o Francisco Barros, quem me deu uma cópia do livro Trenzas Gauchas, o Raul Sartor Filho, o platero, que teve um caminhão de paciência comigo e passava horas no antigo MSN me explicando técnicas e falando sobre couros e ferramentas. Meu pai, Johann G. E. Meier, que fez minha primeira máquina para tirar tentos e até hoje me acompanha nas invenções e loucuras, inclusive na sovadora a motor que logo irei postar imagens, e o meu pai de coração Melito Foss, quem fez meu primeiro cravador e que hoje temos uma amizade e um amor incondicional (amo aquele véio, sim, ele tem 86 anos).
E quando me dizem: "Nossa, você tem muita paciência né?", eu digo não, não tenho paciência, essa eu desenvolvo e alimento quando estou com um cravador e um tento na mão. Nessa hora há uma comunhão entre eu e Deus e nada mais existe na volta, a não ser que uma mão amiga alcance um mate.
"Peço ao Patrão Maior que ilumine meus caminhos, clareie minhas ideias e guie minhas mãos neste mundo!Amém"
Este é meu recanto
"Peço ao Patrão Maior que ilumine meus caminhos, clareie minhas ideias e guie minhas mãos neste mundo!Amém"
Este é meu recanto

Sensacional amiga! Seu post ficou incrível. Me arrepiei com o mantra! Parabéns! Todo sucesso do mundo!!!
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